Há algumas semanas vivi uma situação que me fez refletir sobre um tema que acredito que todos nós, líderes, precisaremos enfrentar cada vez mais.
Eu e meu sócio nos reunimos com um profissional que estávamos avaliando para um projeto. Passamos quase duas horas conversando entre um café e um almoço. Foi uma conversa leve, produtiva e cheia de ideias.
Dias depois recebemos a proposta.
O que mais nos chamou a atenção não foi apenas a qualidade do material, mas o nível de detalhamento. A proposta reproduzia com enorme precisão praticamente tudo o que havíamos discutido. Argumentos, exemplos, preocupações e nuances que, sinceramente, eu mesma já não lembrava com tanta riqueza.
Naquele momento surgiu uma dúvida.
Será que ele utilizou alguma ferramenta de Inteligência Artificial para gravar ou transcrever nossa conversa? Um dispositivo de gravação inteligente? Um aplicativo de transcrição?
Não tenho absolutamente nada contra esse tipo de tecnologia. Muito pelo contrário.
Hoje utilizo IA diariamente. Ela me ajuda a organizar ideias, estruturar documentos, preparar reuniões, analisar cenários e ampliar perspectivas antes de tomar decisões. Posso dizer, sem exagero, que ela já faz parte da minha rotina de trabalho.
O ponto que ficou comigo não foi o uso da tecnologia. Foi a ausência de transparência.
Se a conversa tivesse começado com um simples: “Tudo bem se eu gravar nossa reunião para que uma ferramenta de IA faça a transcrição?”, provavelmente a resposta teria sido um tranquilo “sim”.
Mas quando a tecnologia atua sem que as pessoas saibam, uma pergunta passa a ser mais importante do que a própria ferramenta:
Até onde podemos utilizar a Inteligência Artificial sem comprometer a confiança entre as pessoas?
Foi essa reflexão que me levou a pensar sobre liderança ética na era da IA.
A tecnologia evolui rapidamente. A ética precisa acompanhar esse ritmo.
A Inteligência Artificial vem transformando profundamente os negócios, a forma como trabalhamos e até a maneira como pensamos.
Ela aumenta produtividade, reduz tarefas operacionais, acelera análises e amplia nossa capacidade de decisão.
Os benefícios são inegáveis.
Mas, à medida que a IA passa a participar das decisões, das conversas, dos processos seletivos, dos atendimentos e até das reuniões de trabalho, surgem também novos desafios.
Não estamos falando apenas de vieses algorítmicos, privacidade ou proteção de dados.
Estamos falando de algo ainda mais valioso: confiança.
Porque ética não começa quando a lei exige. Ela começa quando escolhemos agir com transparência, mesmo quando ninguém nos obrigaria a isso.
Liderança ética não é controlar a IA. É orientar seu uso.
Na minha visão, existem alguns compromissos que toda liderança deveria assumir ao incorporar Inteligência Artificial ao dia a dia da empresa.
O primeiro deles é a transparência.
Sempre que a IA participa de um processo importante, as pessoas precisam compreender seu papel. Não porque a tecnologia seja um problema, mas porque a confiança nasce da clareza.
O segundo compromisso é a responsabilidade.
A IA pode recomendar, organizar informações e apoiar análises. Mas ela não assume consequências.
Quem responde pelas decisões continua sendo o líder.
Outro ponto essencial é a equidade.
Precisamos garantir que a tecnologia seja utilizada para ampliar oportunidades e reduzir barreiras, nunca para reforçar preconceitos ou excluir pessoas.
Também acredito profundamente na importância de manter a humanidade no centro.
Quanto mais inteligentes ficam as ferramentas, mais importantes se tornam características exclusivamente humanas: empatia, julgamento, contexto, escuta, sensibilidade e discernimento.
E, por fim, existe um compromisso permanente com o aprendizado.
A IA evolui diariamente. Nossa responsabilidade de aprender, discutir e revisar práticas precisa evoluir na mesma velocidade.
O papel das empresas
Como gestora que atua há muitos anos entre tecnologia e gestão de pessoas, acredito que a responsabilidade das empresas vai muito além de disponibilizar ferramentas de IA.
É preciso construir governança.
Isso significa definir princípios claros para o uso da tecnologia, discutir dilemas éticos, criar processos de revisão, estabelecer responsabilidades e preparar continuamente as equipes.
Na Verx, por exemplo, acreditamos que tecnologia só gera valor quando fortalece pessoas.
Por isso, enquanto avançamos na adoção da Inteligência Artificial, continuamos reforçando dois princípios da nossa cultura: protagonismo e colaboração.
Porque nenhuma tecnologia substitui a responsabilidade individual nem a construção coletiva de soluções.
Algumas perguntas que toda liderança deveria fazer
Antes de implementar qualquer solução baseada em IA, talvez valha a pena refletir:
- As pessoas sabem quando a IA está sendo utilizada?
- Existe transparência suficiente nesse processo?
- Quem responde pelas decisões apoiadas pela tecnologia?
- Estamos usando IA para fortalecer as pessoas ou apenas para automatizar atividades?
- O ganho de eficiência justifica eventuais perdas de confiança?
Nem sempre teremos respostas fáceis.
Mas fazer as perguntas certas já representa um grande avanço.
Mais do que Inteligência Artificial, precisamos de inteligência ética.
Hoje penso novamente naquela reunião. Talvez aquele profissional tenha utilizado IA. Talvez não.
Curiosamente, essa já não é a questão mais importante para mim. O que ficou daquela experiência foi outra reflexão.
À medida que a Inteligência Artificial ocupa cada vez mais espaço nas organizações, transparência, responsabilidade e confiança deixam de ser apenas atributos desejáveis.
Passam a ser condições essenciais para qualquer relação profissional.
A IA não veio para substituir a liderança. Ela veio para exigir uma liderança ainda melhor.
Porque, no fim, a pergunta mais importante já não é “o que a Inteligência Artificial consegue fazer?”
É “como nós escolhemos utilizá-la?”
Tenho convicção de que inovação e ética não competem entre si. Ao contrário. É justamente quando caminhamos com as duas juntas que construímos empresas mais fortes, relações mais confiáveis e um legado que vale a pena deixar.
Elizabeth Vasconcelos
Sócia Diretora












