Perguntar se alguém está bem faz parte das conversas do dia a dia. Às vezes, essa troca acontece de forma tão automática que a pergunta se torna apenas um cumprimento, e a resposta vem antes mesmo de uma reflexão sobre como a pessoa realmente está. A conversa segue, mas nem sempre aquele “tudo bem” traduz o que ela está vivendo, uma pergunta feita por hábito e uma resposta que quase nunca encontra espaço para ser sincera.
E reconhecer o sofrimento emocional pela aparência ou pela rotina de alguém se torna algo difícil, principalmente quando compromissos continuam sendo cumpridos, mensagens respondidas, reuniões realizadas e resultados entregues, mesmo quando a pessoa não se sente bem.
Isso acontece porque o que pode ser observado externamente representa apenas uma parte da experiência de uma pessoa. Continuar realizando tarefas informa algo sobre sua capacidade de manter determinadas atividades, mas não permite concluir, isoladamente, como ela está emocionalmente.
Durante o Setembro Amarelo, essa reflexão ganha destaque, mas é importante lembrar disso o ano todo. A campanha amplia a discussão sobre saúde mental e prevenção do suicídio e também oferece uma oportunidade para rever a expectativa de que todo sofrimento precisa ser evidente para ser levado a sério.


Uma rotina aparentemente normal pode mascarar como alguém realmente se sente
A ideia de que alguém em sofrimento necessariamente deixará de trabalhar, estudar ou se relacionar cria uma compreensão limitada sobre saúde mental. O mesmo acontece quando bem-estar é interpretado como ausência de tristeza, medo, frustração, ansiedade ou estresse. Essas experiências podem fazer parte da vida, e sua avaliação depende de fatores como intensidade, duração, contexto e impacto no cotidiano.
Experiências emocionais não possuem uma aparência única e podem se manifestar de formas distintas em cada pessoa. No cotidiano profissional, manter a rotina e cumprir entregas costumam ser vistos como sinais de bem-estar. No entanto, a produtividade é apenas uma fração da vida humana.
A Organização Mundial da Saúde (OMS) define saúde mental como “um estado de bem-estar mental que permite às pessoas lidar com o estresse da vida, desenvolver suas habilidades, aprender e trabalhar bem e contribuir para a sua comunidade”. A saúde mental é dinâmica e pode variar ao longo do tempo, influenciada por fatores biológicos, sociais e ambientais.
Isso significa que saúde mental não pode ser medida por um único fator. Por essa razão, a capacidade de produzir não é um indicador clínico de saúde mental:
- Entregar resultados não garante bem-estar: Termos populares como “depressão de alta funcionalidade” descrevem pessoas que mantêm a rotina em meio ao sofrimento, mas a Associação Americana de Psiquiatria (APA) ressalta que essa expressão não é um diagnóstico médico específico.
- Oscilações não confirmam diagnósticos: tristeza, cansaço e dificuldades pontuais de concentração podem ocorrer em diferentes momentos e por diferentes razões. Segundo a OMS, um episódio depressivo envolve humor deprimido ou perda de interesse e prazer durante a maior parte do dia, quase todos os dias, por pelo menos duas semanas, além de outros possíveis sintomas. O diagnóstico deve ser realizado por um profissional de saúde habilitado.
Como a saúde mental pode afetar a produtividade no trabalho
Uma revisão da literatura publicada na revista científica Current Psychiatry Reports encontrou associação entre problemas de saúde mental, principalmente depressão e ansiedade, as condições mais investigadas nos estudos analisados, e perdas de produtividade relacionadas ao absenteísmo e ao presenteísmo.
O absenteísmo corresponde à ausência no trabalho, enquanto o presenteísmo ocorre quando a pessoa continua trabalhando, mas uma condição de saúde afeta seu desempenho. Os autores também destacam limitações metodológicas e a necessidade de mais pesquisas longitudinais. O conceito ajuda a mostrar que estar presente não significa necessariamente estar em boas condições, mas ainda assim, não deve ser usado para diagnosticar colegas ou interpretar qualquer oscilação de desempenho.
Entregar resultados não comprova bem-estar, assim como enfrentar uma queda de produtividade não comprova a existência de um transtorno mental.
Para as organizações, a atitude mais responsável é construir ambientes que favoreçam respeito, segurança psicológica, comunicação e acesso a suporte adequado.
A OMS aponta que ambientes profissionais marcados por cargas excessivas, baixo controle sobre o trabalho, discriminação, desigualdade e insegurança profissional podem representar riscos para a saúde mental, e recomenda medidas estruturais, como intervenções organizacionais, capacitação de gestores e apoio aos trabalhadores, em vez de concentrar toda a responsabilidade de cuidado no indivíduo.
Na Verx, o cuidado com as pessoas também se traduz em iniciativas voltadas ao bem-estar e à qualidade de vida e na promoção de conteúdos que envolvam dicas de saúde (física e mental), com o programa Verx Saudável. Essas ações se somam à construção contínua de um ambiente baseado em acolhimento, diálogo aberto e relações transparentes.


Como acolher e apoiar quem precisa de ajuda
Notar mudanças em um colega, liderado ou familiar não autoriza interpretações clínicas ou sugestão de tratamentos. A atenção genuína se manifesta na escuta ativa e na empatia.
Substitua deduções por conversas abertas e respeitosas:
“Percebi que as últimas semanas têm sido mais intensas. Como você está se sentindo e como posso te apoiar?”
No contexto da prevenção do suicídio do Setembro Amarelo, o Ministério da Saúde reforça que não existem fórmulas prontas para identificar uma crise. Manifestações de desesperança, isolamento, falas sobre morte ou mudanças bruscas de comportamento devem ser observadas em conjunto e nunca isoladamente, sem julgamentos ou desqualificações.
Ao perceber sinais de risco, escute sem julgamentos, leve as manifestações a sério e incentive a busca por atendimento profissional capacitado. Em situações de perigo imediato, procure ajuda de emergência e não deixe a pessoa sozinha.
Canais oficiais do Brasil:
- Centro de Valorização da Vida (CVV): Ligue 188 (ligação gratuita, sigilosa e disponível 24h) ou acesse cvv.org.br;
- Rede Pública de Saúde: CAPS (Centros de Atenção Psicossocial), Unidades Básicas de Saúde (UBS), UPAs 24h e Prontos-Socorros;
- Situações de Emergência: SAMU pelo telefone 192.
Pessoas em primeiro lugar
O desempenho revela o que alguém consegue fazer, mas não conta como a pessoa está enquanto faz.
Levar a saúde mental a sério começa por compreender que atenção não é diagnóstico, produtividade não é comprovação de bem-estar e sofrimento não precisa se tornar visível para merecer acolhimento.
Promover diálogos abertos, garantir segurança psicológica e incentivar o acompanhamento profissional são passos essenciais para que ninguém precise enfrentar seus desafios em silêncio.
Este conteúdo tem caráter informativo e não substitui a avaliação, o diagnóstico ou o tratamento por profissionais de saúde habilitados.












