Nesta semana em que o mundo relembra a importância das meninas e mulheres na ciência, vale ampliar a conversa para além de uma data específica. Falar sobre STEM (Ciência, Tecnologia, Engenharia e Matemática) é, sobretudo, falar sobre oportunidades, estímulos e escolhas construídas ao longo da infância e da adolescência.
O interesse por tecnologia e ciência é cultivado, aos poucos, por meio de experiências, brincadeiras, referências e pela forma como apresentamos o mundo às crianças, especialmente às meninas, que historicamente foram menos incentivadas a ocupar esses espaços.
Por que incentivar meninas desde cedo nas áreas STEM
Desde pequenas, muitas meninas são direcionadas na maior parte do tempo a brinquedos e atividades ligadas ao cuidado, à estética, por exemplo, enquanto meninos costumam ser estimulados com jogos de construção, competição, lógica, estratégia e exploração.
Não se trata de excluir interesses, mas de ampliar possibilidades. Quando mais meninas têm acesso a diferentes tipos de estímulos, elas desenvolvem habilidades fundamentais para áreas STEM (Ciência, Tecnologia, Engenharia e Matemática), como:
- raciocínio lógico
- resolução de problemas
- pensamento espacial
- criatividade aplicada
- autonomia e curiosidade
Essas habilidades não pertencem a um gênero elas se desenvolvem com prática, incentivo e acesso.
Brinquedos, jogos e brincadeiras que estimulam o interesse por Ciência, Tecnologia e áreas relacionadas
Jogos de construção (blocos, kits de montagem)
Esses brinquedos ajudam a desenvolver pensamento espacial, lógica, planejamento e noções básicas de engenharia. Ao montar, desmontar e testar possibilidades, a criança aprende, por exemplo, sobre causa e efeito, estrutura e solução de problemas.
Jogos de tabuleiro e quebra-cabeças
Jogos que envolvem estratégia, padrões, sequência e tomada de decisão estimulam raciocínio matemático, concentração e pensamento crítico, habilidades essenciais para tecnologia e ciência.
Videogames
Videogames não são apenas entretenimento. Muitos jogos desenvolvem lógica, pensamento estratégico, resolução de problemas complexos, persistência e aprendizagem por tentativa e erro. Jogos de simulação, construção de mundos, programação básica ou estratégia estimulam habilidades muito próximas das usadas em tecnologia.
Livros infantis e juvenis sobre ciência e tecnologia
Livros que apresentam cientistas, experimentos, curiosidades científicas e histórias de descobertas ajudam as crianças a imaginarem e se enxergarem como protagonistas do conhecimento.
Brincadeiras de experimentação
Experimentos simples, observação da natureza, jogos de perguntas, jogos de investigação, montagem de circuitos básicos ou desafios criativos estimulam curiosidade científica e pensamento investigativo.
Referências importam: mulheres brasileiras que transformam a ciência
Além dos estímulos práticos, referências reais fazem diferença. Conhecer mulheres que atuam na ciência ajuda meninas a entenderem que esses caminhos são possíveis. Nós trouxemos três brasileiras reconhecidas pelos seus trabalhos na ciência, são elas:
Jaqueline Goes de Jesus
Biomédica e doutora em patologia, Jaqueline teve papel fundamental ao coordenar o sequenciamento do genoma do coronavírus no Brasil em tempo recorde, durante a pandemia. Esse trabalho permitiu monitorar mutações do vírus e apoiar estratégias de enfrentamento da crise sanitária.
Jaqueline é baiana e liderou a equipe que sequenciou o genoma do SARS-CoV-2 apenas 48 horas após o primeiro caso confirmado no Brasil (a média mundial era de 15 dias).
O Trabalho: ela utiliza a técnica de sequenciamento genético em tempo real para monitorar como os vírus se espalham. Antes da COVID-19, ela já tinha um trabalho importante no mapeamento do vírus Zika.
Mayana Zatz
Geneticista e pesquisadora da USP, Mayana Zatz é referência internacional em genética humana e doenças neuromusculares, contribuindo para avanços científicos que impactam diretamente a qualidade de vida de milhares de pessoas. Mayana é o maior nome da genética no Brasil. Ela fundou a Associação Brasileira de Distrofia Muscular (ABDIM).
O Trabalho: sua pesquisa foca em doenças neuromusculares e no uso de células-tronco para tratamento de doenças degenerativas. Ela foi pioneira ao sequenciar o genoma de pessoas acima de 80 anos para entender por que algumas pessoas envelhecem com mais saúde que outras (Projeto 80+).
Tatiana Sampaio
Bióloga e Doutora em Ciências pela UFRJ, Tatiana dedica sua carreira à bioquímica e biofísica. Ela é a mente por trás de uma descoberta revolucionária: a polilaminina, uma proteína que auxilia na regeneração neural e na reconexão de neurônios da medula espinhal. Seu trabalho ganhou os holofotes com casos reais de pacientes que recuperaram movimentos após paralisia, e em 2026 suas pesquisas avançaram para a fase de estudos clínicos oficiais com o apoio da Anvisa, tornando-se uma esperança concreta para o tratamento de lesões medulares graves.
O Trabalho: ela investiga como o sistema nervoso pode se recuperar após traumas. Seu foco é a plasticidade neural. Ela estuda como células e moléculas podem ser manipuladas para que neurônios voltem a fazer conexões em casos de paralisia. É um trabalho de ponta que une biologia molecular e medicina regenerativa.
O bancário Bruno Drummond de Freitas, que ficou tetraplégico após um acidente de carro, foi um dos primeiros a receber a polilaminina experimental. Apenas duas semanas após a aplicação, ele voltou a mover o dedão do pé e, meses depois, conseguiu voltar a andar e hoje leva uma vida ativa.
Criar oportunidades é criar futuros
Incentivar meninas nas áreas STEM não é sobre impor escolhas, mas sim, garantir acesso, referências e liberdade para explorar interesses diversos.
Quando ampliamos os estímulos desde cedo com brinquedos, livros, jogos, brincadeiras e exemplos reais, ajudamos a construir um futuro mais diverso, inovador e humano para a ciência e a tecnologia.
Referências e Leituras Complementares:
- Jaqueline Goes de Jesus:
- Mayana Zatz:
- Tatiana Sampaio:












