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NR-1 e saúde mental: até onde vai a responsabilidade da empresa?

Nos próximos meses, muitas empresas brasileiras revisarão políticas, processos e práticas internas por causa de uma mudança importante na legislação trabalhista. 

A atualização da NR-1 (Norma Regulamentadora nº 1) passou a exigir que as organizações incluam os chamados riscos psicossociais, fatores relacionados à saúde mental, no seu Programa de Gerenciamento de Riscos (PGR). 

Dados do Ministério da Previdência mostram que mais de 440 mil trabalhadores foram afastados do trabalho por transtornos mentais em 2024, o maior número da série histórica no país. Em relação ao ano anterior, esse número aumentou 68%. 

As empresas têm até maio de 2026 para se adequar às novas exigências, quando a fiscalização começará a ser aplicada de forma efetiva. 

Na prática, isso significa que temas como: 

  • pressão excessiva por resultados 
  • jornadas prolongadas 
  • hiperconectividade 
  • falta de clareza de papéis 
  • ambientes de trabalho que geram estresse constante 

passam a fazer parte oficialmente da agenda de segurança e saúde no trabalho. Esse avanço regulatório é importante. Mas ele também abre uma discussão que talvez ainda estejamos amadurecendo: até onde vai a responsabilidade da empresa pela saúde mental e onde começa a responsabilidade do indivíduo? 

 

Um país hiper conectado e emocionalmente pressionado 

Quando olhamos para o comportamento social no Brasil, encontramos um cenário que ajuda a explicar parte dessa pressão emocional. 

Segundo o relatório Digital 2024, da We Are Social e Meltwater, os brasileiros passam em média 9 horas e 13 minutos por dia conectados à internet, um dos maiores índices do mundo. 

O país também figura entre os maiores consumidores de redes sociais do planeta, com forte presença em plataformas como WhatsApp, Instagram e TikTok. São cerca de 144 milhões de usuários ativos de redes sociais, o que representa mais de dois terços da população brasileira. 

Isso significa convivermos diariamente com: 

  • excesso de informação; 
  • comparações sociais permanentes; 
  • estímulos de consumo; 
  • cultura de urgência; 
  • sensação constante de estar “ficando para trás”. 

Esse fenômeno ganhou até um nome na psicologia comportamental: FOMO – Fear of Missing Out, ou o medo de ficar de fora. 

E ele não nasce dentro das empresas. 

Ele nasce na cultura digital contemporânea. 

 

Quando tudo vira responsabilidade da empresa 

Nos últimos anos, assistimos a uma ampliação progressiva das expectativas sobre o papel das organizações. 

Hoje se espera que a empresa: 

  • promova saúde mental; 
  • ofereça programas de bem-estar; 
  • incentive aprendizado contínuo; 
  • apoie educação financeira; 
  • estimule propósito e felicidade no trabalho. 

Tudo isso é positivo. 

Mas também levanta uma questão importante: até que ponto estamos transferindo responsabilidades individuais para o ambiente corporativo? 

A empresa tem, sim, o dever de garantir: 

  • condições dignas de trabalho 
  • ambientes psicologicamente seguros 
  • gestão saudável de metas e jornadas 
  • respeito e prevenção de assédio 

Mas ela não substitui o papel da família, da escola ou do próprio indivíduo na construção da maturidade emocional. 

 

Maturidade profissional também é parte da equação 

Em qualquer ambiente profissional existem dois tipos de responsabilidade: organizacional e individual. 

A organização precisa criar condições adequadas de trabalho. 

Mas o profissional também precisa desenvolver competências como:gestão da própria energia, disciplina digital, inteligência emocional e responsabilidade sobre escolhas pessoais, por exemplo. 

E com isso, o desafio contemporâneo talvez esteja justamente nesse ponto: equilibrar proteção institucional com protagonismo individual. Porque ambientes saudáveis dependem dos dois lados. 

 

O debate que ainda precisamos amadurecer 

A NR-1 trouxe um avanço importante ao reconhecer que fatores psicossociais fazem parte da saúde no trabalho. 

Mas a discussão sobre saúde mental nas organizações ainda precisa evoluir para um lugar mais equilibrado. 

Um lugar que reconheça que: empresas têm responsabilidades claras, líderes têm impacto direto no ambiente de trabalho, mas também, indivíduos também têm papel ativo na gestão da própria vida emocional. 

Talvez a pergunta que precisamos fazer não seja apenas: “o que a empresa deve fazer pela saúde mental das pessoas?” Mas também: “como indivíduos e organizações podem dividir essa responsabilidade de forma madura?” 

Essa é uma conversa que ainda está começando e tem muito a ser discutido.  

 

Elizabeth Vasconcelos

Sócia Diretora na Verx

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