Nos meus dois últimos artigos, falei sobre a atualização da NR-1, o crescimento dos afastamentos por transtornos mentais e como a hiperconectividade, o FOMO e a cultura da urgência permanente estão impactando a saúde emocional das pessoas dentro e fora das empresas.
Mas, enquanto escrevia sobre tudo isso, comecei também a refletir sobre algo mais pessoal.
Tenho vivido uma fase da vida em que o cansaço mental já não vem apenas do trabalho. Ele vem do acúmulo, da velocidade constante, da sensação de precisar dar conta de tudo ao mesmo tempo.
Empreender, liderar pessoas, cuidar da casa, acompanhar filhas adolescentes, lidar com as transformações físicas e emocionais da menopausa… tudo isso enquanto seguimos conectados praticamente o tempo inteiro.
E talvez esse seja um dos pontos mais importantes dessa discussão: muitas vezes o esgotamento contemporâneo não nasce de um único lugar. Ele nasce do excesso.
O cansaço da hiperconexão
O Brasil está entre os países mais conectados do mundo. Segundo o relatório Digital 2024, os brasileiros passam, em média, mais de 9 horas por dia conectados à internet.
Ao mesmo tempo, crescem os relatos de ansiedade, dificuldade de concentração, distúrbios do sono, fadiga mental, sensação permanente de urgência.
Vivemos expostos a excesso de informação, comparações constantes, estímulos contínuos de consumo, pressão por produtividade e necessidade de estarmos sempre disponíveis.
E isso, na minha opinião, produz um efeito silencioso: a sensação de que nunca conseguimos realmente descansar.
O movimento que começa a surgir
Talvez justamente por isso tenha começado a ganhar força um movimento quase oposto ao FOMO. Um conceito chamado JOMO (Joy of Missing Out).
A alegria de não precisar participar de tudo (amo essa sensação muitas vezes, rs!).
E talvez o JOMO seja menos sobre desconexão e mais sobre maturidade.
A maturidade de entender que:
- não precisamos responder tudo imediatamente
- não precisamos acompanhar todas as tendências
- não precisamos transformar cada minuto em produtividade
- e não precisamos viver permanentemente disponíveis
Num mundo em que tudo disputa nossa atenção, aprender a criar limites se tornou quase um ato de saúde mental.
Maturidade profissional também é autoconsciência
Durante muito tempo, falamos sobre performance profissional quase exclusivamente sob a ótica técnica. Mas o mundo atual exige outras competências. Talvez mais difíceis:
- gestão da própria energia
- inteligência emocional
- disciplina digital
- capacidade de priorização
- construção de limites saudáveis
Porque uma parte importante da pressão emocional contemporânea nasce justamente da ausência desses limites.
O profissional que nunca se desconecta não descansa. O que vive comparando sua trajetória com a dos outros nunca sente satisfação. O que tenta acompanhar tudo ao mesmo tempo vive em estado constante de ansiedade.
E isso inevitavelmente aparece no ambiente de trabalho…
Saúde mental também passa por dinheiro, consumo e escolhas
E para mim, existe um ponto pouco discutido quando falamos sobre saúde emocional – a relação entre dinheiro, comportamento e ansiedade.
O Brasil encerrou 2024 com mais de 70 milhões de pessoas inadimplentes, segundo dados da Serasa. Ao mesmo tempo, cresce o impacto emocional provocado por:
- consumo impulsivo
- apostas online
- pressão social por padrão de vida
- comparação financeira nas redes sociais
Tudo isso gera uma sensação constante de insuficiência.
E essa pressão emocional também chega ao trabalho. Chega na atenção fragmentada. Na produtividade. No sono. Na ansiedade diária. Na dificuldade de presença.
Por isso, talvez saúde mental não possa mais ser discutida sem falarmos também sobre:
- educação financeira
- consumo consciente
- disciplina emocional
- responsabilidade individual
O futuro talvez não seja mais lento, mas precisará ser mais consciente
Recentemente participei de um evento de download do SXSW, e uma das coisas que mais me chamou atenção foi perceber que, em meio a tantas discussões sobre inteligência artificial, a pauta recorrente era justamente humanidade.
A futurista Sabina Deweik trouxe uma reflexão poderosa: “O ser humano é processual. A tecnologia é exponencial.”
Talvez por isso temas como profundidade, discernimento, curadoria, limites, saúde social, comecem a ganhar tanta relevância.
Porque talvez o JOMO não seja apenas sobre desacelerar. Talvez seja sobre recuperar presença, atenção e autonomia em um mundo que disputa nossa mente o tempo inteiro.
O mundo dificilmente ficará menos conectado. A velocidade não vai diminuir.
Mas talvez a maturidade que começa a surgir esteja justamente na capacidade de escolher melhor o que merece nossa energia.
Consumir menos estímulo. Desacelerar sem culpa. Voltar a ter profundidade em vez de apenas velocidade.
Talvez o verdadeiro movimento de saúde mental dos próximos anos não seja aprender a fazer mais. Mas aprender, conscientemente, o que já não faz sentido carregar.
Elizabeth Vasconcelos
Sócia-Diretora da Verx












