No artigo anterior, trouxe uma reflexão sobre a atualização da NR-1 e a pergunta que ela inevitavelmente nos provoca: até onde vai a responsabilidade da empresa pela saúde mental e onde começa a responsabilidade do indivíduo e da própria sociedade?
A norma representa um avanço importante ao exigir que organizações incluam riscos psicossociais no gerenciamento de riscos ocupacionais.
Mas, os dados mostram que estamos lidando com um fenômeno muito mais amplo do que apenas o ambiente de trabalho.
O Brasil vive hoje um aumento significativo de afastamentos por transtornos mentais e parte desse fenômeno nasce fora das empresas.
Um país emocionalmente pressionado
Dados do Ministério da Previdência indicam que mais de 470 mil trabalhadores foram afastados do trabalho por transtornos mentais em 2024, o maior número já registrado no país. Ansiedade, depressão e outros transtornos psicológicos já figuram entre as principais causas de afastamento no sistema previdenciário.
Esse crescimento levou o Estado a reforçar mecanismos de prevenção dentro das empresas e a atualização da NR-1 surge justamente nesse contexto.
Mas existe uma questão importante nesse debate: o ambiente de trabalho não é o único espaço onde o adoecimento emocional se constrói. Grande parte da pressão mental contemporânea nasce na forma como vivemos hoje.
A sociedade da hiper conexão
O Brasil está entre os países mais conectados do mundo.
Segundo o relatório Digital 2024, da We Are Social e Meltwater, os brasileiros passam em média 9 horas e 13 minutos por dia conectados à internet, um dos maiores índices globais.
Além disso, o país conta com cerca de 144 milhões de usuários ativos de redes sociais, o que representa mais de dois terços da população. Essa exposição constante significa convivermos diariamente com excesso de informação, comparações sociais permanentes, estímulos contínuos de consumo, fluxo ininterrupto de notícias e opiniões e pressão social por desempenho e sucesso, por exemplo.
Esse ambiente digital cria um fenômeno psicológico cada vez mais discutido: o FOMO, ou Fear of Missing Out (traduzido como O Medo de Ficar de Fora).
Quando a cultura da urgência se torna permanente
O FOMO é frequentemente associado às redes sociais, mas seus efeitos vão muito além da esfera digital.
Pesquisas em psicologia comportamental mostram que altos níveis de FOMO estão associados a ansiedade, dificuldade de concentração, pior qualidade do sono e maior fadiga mental.
Estudos publicados no Journal of Behavioral Addictions e em pesquisas da University of Oxford indicam que o uso intensivo de redes sociais pode aumentar a sensação de urgência permanente e reduzir a capacidade de descanso psicológico.
Esse padrão não fica restrito à vida pessoal. Mas, atravessa o dia a dia das pessoas e inevitavelmente chega ao ambiente de trabalho. O profissional que passa horas exposto a estímulos digitais tende a levar para o trabalho um estado mental de alerta constante, como se tudo exigisse resposta imediata.
E é nesse ponto que surge um fenômeno interessante. Nem sempre essa pressão nasce da liderança. Mas, muitas vezes pode ser criada pelos próprios profissionais.
Mensagens enviadas fora do horário, respostas imediatas a qualquer demanda, participação em todas as conversas e reuniões… Tudo isso pode gerar uma dinâmica em que todos se sentem pressionados a acompanhar o mesmo ritmo.
Cria-se então um ciclo difícil de interromper: alguém envia uma mensagem esperando agilidade -> quem recebe acredita que precisa responder imediatamente -> quem observa passa a adotar o mesmo comportamento -> e rapidamente a urgência se torna a norma.
A pergunta que surge é quase paradoxal:
“respondemos rápido porque o trabalho exige ou o trabalho passou a exigir rapidez porque todos passaram a responder rápido?”
O desafio para as empresas e para a NR-1
Esse tipo de comportamento coletivo é exatamente o tipo de fenômeno difícil de identificar em diagnósticos formais. Quando uma empresa realiza pesquisas internas ou avaliações de riscos psicossociais, como exigirá a NR-1, pode surgir a percepção de que existe pressão por respostas rápidas ou hiperconectividade.
Mas nem sempre essa dinâmica foi criada por políticas organizacionais ou exigências explícitas da liderança, em muitos casos, ela nasce de um comportamento social mais amplo que se reproduz dentro das empresas. Isso levanta uma questão importante para os próximos anos:
Como diferenciar, nos diagnósticos organizacionais, o que é de fato uma pressão estrutural do trabalho e o que é reflexo de padrões sociais de hiperconectividade que os próprios profissionais trazem para dentro das empresas?
Essa distinção não é simples e talvez ela seja um dos grandes desafios práticos da implementação da NR-1.
Outros fatores sociais que alimentam a pressão emocional
A hiperconectividade não é o único fenômeno social que influencia esse cenário, outros fatores vêm intensificando a pressão emocional no Brasil.
Entre eles:
- o crescimento das plataformas de apostas online, que especialistas em saúde pública já associam ao aumento de comportamentos compulsivos e problemas financeiros;
- o aumento do endividamento das famílias, que gera pressão econômica constante e ansiedade prolongada;
- e a exposição contínua a padrões de consumo e sucesso nas redes sociais, que amplifica comparações e expectativas irreais.
Todos esses fatores influenciam diretamente o estado emocional das pessoas e inevitavelmente chegam ao ambiente de trabalho.
Um debate que precisa amadurecer
A atualização da NR-1 é um avanço importante, já que a norma reconhece que fatores psicossociais precisam fazer parte da gestão de saúde e segurança no trabalho. Mas, talvez esse momento também nos convide a ampliar a conversa.
O crescimento dos afastamentos por transtornos mentais não nasce apenas dentro das empresas. Ele reflete uma transformação mais profunda na forma como vivemos, consumimos informação, lidamos com tecnologia, dinheiro, comparação social e expectativas de sucesso.
Se quisermos enfrentar esse problema de forma estrutural, a responsabilidade não pode ficar concentrada apenas nas organizações. Empresas têm, sim, um papel importante em criar ambientes de trabalho mais saudáveis. Mas, o debate também precisa envolver: políticas públicas de saúde mental, educação digital para lidar com hiperconectividade, regulação responsável de ambientes digitais que estimulam comportamentos compulsivos e, sobretudo, uma maior consciência coletiva sobre como estamos vivendo e trabalhando.
Talvez o maior risco seja tratarmos a NR-1 apenas como mais uma obrigação regulatória a ser cumprida.
Ela pode (e deveria) ser também um convite para uma conversa mais madura entre governo, empresas e sociedade sobre como dividir essa responsabilidade. Porque o adoecimento emocional que vemos crescer hoje não pertence apenas ao ambiente corporativo, ele atravessa a sociedade inteira, infelizmente.
E talvez seja justamente por isso que começa a surgir, de forma cada vez mais forte, um movimento que vai na direção oposta da hiper conexão e da urgência permanente. Um conceito chamado JOMO – Joy of Missing Out (traduzido como A Alegria em Estar de Fora)
A ideia de que talvez não seja necessário estar em todos os lugares, acompanhar todas as conversas ou responder a todos os estímulos. Mas, esse já é tema para o próximo artigo da série.
Elizabeth Vasconcelos
Sócia-Diretoria da Verx












